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Blog Vou de Bike

Postado em 11 de março por gugamachado

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“Sobre nossas ruas desiguais: viva David!” por @Daniel Guth

o que sobrou da bicicleta de David, por @danielguth

o que sobrou da bicicleta de David, por @danielguth

Já era madrugada e a mente seguia numa espiral de angustiantes lembranças. Que dia o de ontem!

A imagem do olhar assustado da “Srª Antônia”, a mãe do jovem David, me faz refletir imediatamente acerca das injustiças deste país.

Muito pelo ineditismo de um roteiro digno de uma obra do maldito Zé do Caixão, talvez vejamos um desfecho histórico deste triste episódio.
Será que a justiça – não aquela deturpada pelos meandros das estratégias de um bom advogado de defesa – chegará à secular literatura dos casos de impunidade ungidos pela industria automobilística?

Acompanharemos.

Carteira de Identidade de David, por @danielguth

Carteira de Identidade de David, por @danielguth

Nesta madrugada me flagrei pensando nas manifestações que nos remetem ao primitivo sentimento de injustiça. A fome, por exemplo, faz-nos solidarizar pela violência com que escancara as desigualdades. As condições de saneamento, as favelas, os mendigos, as crackolândias, os orfanatos, as guerras, as doenças sem cura, os hospitais e escolas públicas, enfim, tudo o que nos remete, sem titubear, à dura sociedade esculpida na desigualdade e na EXCLUSÃO.

E pergunto: por que não o trânsito ou a vida que pulsa nas ruas? Será que existe manifestação mais contundente de desigualdade do que as ruas das nossas cidades?

Reflitamos:

1/3 dos paulistanos se deslocam diariamente de carro. 2/3 de outros modos de transporte. A quem se destina a maior fatia do espaço nas ruas? A quem se destaca todo o efetivo da Companhia de Engenharia de Tráfego para a eterna batalha pela manutenção da fluidez?

Será que não estamos excluindo 2/3 da população, através do seu modo de transporte, para incluir 1/3? Esta conta nunca fechou.

Quando você, leitor, caminha por SP, você se sente INCLUÍDO? E quando você, leitor, pedala por SP e não tem um local sequer para estacionar sua bicicleta, você se sente INCLUÍDO?

História rápida

Quando os primeiros automóveis foram introduzidos nas cidades, sua inclusão se deu às custas de muito sangue e protestos. O carro era, naquele momento, um intruso, um elemento exótico não apenas à paisagem mas à real função (milenar) das ruas como espaço público para os encontros, para o comércio, para as trocas e, principalmente, para as crianças brincarem. Tudo se fazia nas ruas e, para a tristeza de mães e pais, as crianças foram as primeiras vítimas desta sanguinária indústria.

Um passeio pela Wall Street antiga, onde os pedestres eram a maioria

Era natural que houvesse uma repulsa aos carros. No entanto, com estratégias de comunicação sedutoras, muito dinheiro e apoio político, as cidades foram se moldando para INCLUIR este intruso. Os protestos cessaram, as crianças foram trancafiadas em playgrounds e o automóvel passou a ocupar, de forma cada vez mais desigual, este espaço que era de TODOS.

Blá, blá, blá e 1 século se passou.

Concluindo

Hoje vemos cidades por todo o planeta numa constante batalha para reverter este equívoco secular. Algumas se anteciparam, como Amsterdam, Copenhague, Paris, Bogotá. Outras estão num rápido processo de re-humanização, como NY, Santiago, Londres, Melbourne.

Por que não SP?

O que nos freia, nos segura, nos mantém numa postura conservadora e individualista de manutenção do “status quo viário”?

A violência do atropelamento de ontem, seguida pelos acontecimentos surrealistas que todos acompanhamos, tem que servir para nossa profunda reflexão e, quiçá, mudança de atitudes e comportamentos. Senão estaremos emburrecendo e repetindo os mesmos erros. Over and over.

Já fomos alertados pelo mantra sartreano de que “o inferno são os outros”. Afinal, conte-nos, o que você aprendeu com o episódio de ontem?

@danielguth


Comentário

  • Se eu pudesse dizer algo ao David Santos de Souza, o ciclista que teve seu braço amputado por um animal bêbado dirigindo um veículo enquanto andava de bicicleta, seria:
    “Oi, David… Como você está? Péssimo, eu sei. Mas eu tô aqui pra te contar uma história. Em 31 de dezembro de 1984, Rick Allen, baterista do Def Leppard, uma banda de Rock n’ Roll que você provavelmente não conhece – mas pode ser até que conheça – sofreu um acidente de carro. Ele, por uma bobeira – uma ultrapassagem mal negociada enquanto ia para uma festa de ano novo – teve seu braço amputado no acidente. Conseguiram reimplantar o braço de Rick, mas por conta de uma infecção ele acabou perdendo o membro. Como você, ele usava os braços para desempenhar seu trabalho. A vida parece que vai mudar radicalmente quando uma perda dessa acontece. Não é algo material, é algo seu. É algo que dói, é algo que te faz viver!
    Mas Rick precisava trabalhar. E não mudou de trabalho. Durante quatro anos, passou o tempo estudando como faria para voltar aos palcos. Ele adaptou sua bateria, implantou um sistema de pedais, e até hoje ele toca, sendo uma das histórias mais lindas, um dos maiores exemplos da música mundial.
    O que eu desejo a você? Que você supere! Supere o preconceito de uma sociedade, supere o sofrimento da perda, supere a raiva do mutilador. Você é muito, mas muito maior que tudo isso! Se Rick Allen conseguiu, você também conseguirá! Você já é um vencedor, garoto! FORÇA! VOCÊ VAI CONSEGUIR!”

    Ana Daniela
  • Todas as vezes qe leio sobre esse acontecido eu não consigo me conter. Choro. É uma tristeza tão grande e uma vergonha de ser da mesma especie de alguém que quase mata, não socorre e ainda tem a frieza de tentar ocultar o crime da forma como fez…

    Aldo Malta
  • Occupy! Essa é minha sugestão. Todo dia. Flash Mobs diários de ocupação de uma faixa inteira por de 4 ciclista. Algum cartaz na mao. Temos que marcar. Não podemos deixar esfriar o sentimento de indignação.

    julio
  • Eu aprendi com o episódio de ontem que o nosso país ainda está muito longe, mas muito longe mesmo, de chegar perto de um país desenvolvido e igualitário. Infelizmente o pensamento de nossa população é egoísta e mesquinho. Assim sendo, continuaremos a assistir e sofrer com cenas deste tipo por longo tempo.
    A vida humana não vale nada. Latas sobre rodas valem tudo. Nossas cidades são feitas para os automóveis. Enquanto a vida não for valorizada, nunca teremos cidades para pessoas.

    Ricardo Scheicher
  • Simplesmente concordo com todos vocês.

    Daniel Guth
  • Eu aprendi que as pessoas podem ser ainda piores do que eu pensava. Os comentários das notícias do acidente me fizeram perder qualquer esperança na sociedade. Cheguei a ler que um cara que ia trabalhar num domingo era um “desocupado” por estar pedalando na Paulista – obviamente exclusiva para carros.

    Outros comentários culpavam o David pois rua é lugar de carro, calçada é lugar de pedestre e as bicicletas só podem andar nos parques e ciclovias. Cruel!

    Max Wolosker
  • Aprendi, não, a palavra não é aprendi, é entendi. Entendi, de uma vez por todas, que meu pensamento sobre nosso País estava certo. São Paulo é uma cidade de arrogantes, de egocêntricos, onde o eu vale muito e o você vale quase nada. Ter um carro bacana e uma posição legal na empresa é mais importante que respeitar o próximo, que adquirir cultura, que ensinar etica aos seus filhos, que ensinar que a soliariedade e o carinho são o único caminho. Aqui não. Aqui se você tem grana você ta feito. O resto, é resto, pode jogar no rio.

    mariana
  • Gostei muito de texto e compartilho aqui abaixo, algumas de experiências minhas no transito de SP.

    Sempre adorei pedalar e em meados de 2007, comecei a ir diariamente ao trabalho de bicicleta, nessa época, eu era um dos poucos no caminho. Enquanto de carro ou ônibus/metrô o trajeto levava pelo menos uma hora, minha pedalada era rápida!Meia hora no máximo e já estava no destino.

    Hoje trabalho de minha casa e não mais preciso da bicicleta como meio de transporte diário, mas continuo fazendo minhas pedaladas sempre que posso.

    De 2007 pra cá, tivemos uma grande evolução no que de diz respeito as bicicletas no transito! A questão da ciclofaixa foi fundamental para isso! Colocar as pessoas do outro lado é importantíssimo!

    Mas pq então tantos acidentes?! Infelizmente, o número de ciclistas hoje nas ruas é infinitamente maior e vivemos em uma sociedade egoísta, onde cada um só consegue pensar em si!!

    Tentem pegar o metro na linha vermelha em horário de pico, tentem sair de uma vaga em uma rua movimentada, tentem atravessar a rua na faixa de pedestre ( melhorou com as multas, mas só pq iria doer no bolso). É cada um por si!!!

    Já fui obrigado a discutir com um motorista de um carro importado que jogava o carro de propósito em cima de mim e ainda falou: “- A rua é para os carros, onde você esta vendo ciclovia aqui”

    Enquanto a sociedade não começar a pensar como sociedade, enquanto as pessoas continuarem sendo egoístas, infelizmente teremos atropelamento de pedestres, ciclistas, brigas no transito, brigas no metro e mortes imbecis.

    Diego Freitas
  • Primeiramente eu queria dizer para a Ana Daniela, que se ela for ao Hospital falar isso que ela escreveu pro David, eu quero estar junto e gravar. Eu gosto da banda e conheço essa história de superação, realmente tem tudo haver.

    De resto, referente ao texto que pergunta se temos inclusão, não precisei terminar minha faculdade de Economia para entender que quando o setor público falha o privado acha espaço. E tendo isso em vista, gostaria de compartilhar meu projeto (que estou desenvolvendo a 3 anos).

    Estou fazendo um estudo com os ciclistas de São Paulo, que utilizam a bike como meio de transporte casa-trabalho/estudo. O projeto visa melhorar o relacionamento com os ciclistas de São Paulo e quebrar barreiras no destino.
    A pesquisa é rápida, tem apenas 8 perguntas. Se os amigos ciclistas puderem responder e divulgar, estaremos dando um passo para a melhoria nos serviços prestados para ciclistas.
    O link da pesquisa é: http://www.surveymonkey.com/s/Z9YJSF7

    Gostaria de entrar em contato com os amigos ciclistas para poder explicar melhor, meu e-mail é
    ro7verde@hotmail.com

    Desde já agradeço,
    Rodrigo.’.

    Rodrigo
  • “Morreu na contra-mão atrapalhando o tráfeco…” quando ouço Chico Buarque citando esta parte na letra Construção, entendo que o o acontece hoje é isso, o trânsito, os automóveis, são mais importantes que o humano… A via pública não é pública pôrra nenhuma… já foi um dia… quando eu jogava bola nela com meus amigos. Hoje tem dono: é dos veículos e seus condutores neuróticos.

    Marcos
  • Rodrigo, divulgue sua pesquisa nos grupos do Facebook.

    Diego Freitas, que mensagem ótima! Concordo plenamente. Só gostaria de lembrar que vemos o número de ciclistas mortos diminuir a cada ano, ao passo que só aumenta o número de ciclistas na cidade. Abs!

    Daniel Guth
  • Guth, texto na mosca. Ana Daniela, gostei do que vc escreveu, só peço que vc não chame o Alex Siwek de animal. Ele é um ser humano. Só humanos fazem o que ele fez.

    Renata Falzoni espn.com.br/renatafalzoni
  • Sempre gostei de comparar, de maneira tosca, o trânsito ao comportamento humano… E já faz muito tempo que insisto que o individualismo anda exacerbado. É só notarmos a maneira como a maior parte das pessoas dirige seus carros, sem excluir ônibus, motos, caminhões….e até as bicicletas. (Vou explicar: claro que veículos maiores e automotores têm força maior e, portanto, mais capacidade para causar tragédias, mas o individualismo está presente no comportamento de cada ser humano e pode ser observado muito bem no trânsito) Se o sujeito sai de casa atrasado, existe a ansiedade a chegar logo ao destino, ele é campeão mundial em tempo a se tocar a buzina quando o sinal fica verde, anda grudado na traseira do veículo à frente, xinga, gesticula e comete infrações, como ultrapassagem pela direita, sem sentir qualquer culpa, ao contrário, achando-se o dono da razão….E isso vale para todos!!! No caso de o mesmo sujeito ter em mente um passeio, simplesmente pensar na vida, escutar uma música e curtir as cenas que passam por ele, o comportamento é oposto: ele se irrita com a buzina, faz desafios ao ansioso que cola em sua traseira, grita impropérios aos infratores que o ultrapassam pelo lado errado, sentindo-se cheio de razão por andar em velocidade mínima na faixa da esquerda… Este é o retrato do ser humano principalmente nas grandes cidades. E… nas noites de happy hour e baladas essa postura se torna ainda mais agressiva, fruto de substâncias que normalmente alteram o senso das pessoas… Nos falta educação, nos falta civilidade, nos falta respeito, nos faltam valores, nos falta consciência. E não digo isso só porque perdi alguém que amava no trânsito, digo porque convivo com seres da minha espécie todos os dias e acho inevitável a comparação. Deveríamos querer mais paz!

    Janaina Lemos
  • Obrigado, Rê. De fato animal algum seria capaz disto.

    Daniel Guth
  • Sinto-me agradecida de participar com V.Sas. da importante manifestação dia 17/03/13. A situação que vitimou meu vizinho David chocou à muitos e a disposição dele em recomeçar, nos inspira a persistir. Preocupo-me com sermos novamente ‘enrolados’: saimos com a palavra do filho do Prefeito , que o mesmo receberá as entidades e os munícipes ciclistas até sexta 22/3. Eu por ainda não conhecer várias das pessoas dedicadas aí da Capital, insisti na melhor agenda possível, pois não queria sair da porta do prédio sem resultado algum. Fiquei muito feliz com esse primeiro agendamento, e muito honrada de atuar ao lado de tantas/os cidadãos Ciclistas conscientes. Abraço ao Daniel Guth que se estende à todas/os que cooperam com o ‘Eu vou de bike’ e/ou até lá estavam. Cristina Loureiro ( twitter.com/CristinaFloreat )

    Cristina Loureiro
  • kailayne caroline ribeiro

    kailayne 44740110

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