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Blog Vou de Bike

Postado em 29 de abril por gugamachado

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Conhecendo a Bicicloteca

                                  

Em 2011, o nosso amigo Lincoln Paiva, ceo do Instituto Mobilidade Verde encontrou com um ex-morador de rua na frente da Biblioteca Mario de Andrade no centro de São Paulo, que lhe contou uma história incrível.

Ele havia saído das ruas após ter encontrado o livro Revolução dos Bichos/George Orwell no lixo, e, após sua leitura, tomou esta decisão! A partir daí o seu sonho foi o de levar livros para outros moradores de rua, pois estas pessoas não tinham acesso a leitura, visto que em bibliotecas públicas é necessário preencher uma ficha cadastral com endereço fixo e, obviamente, morador de rua não possui residência. 

De acordo com o Movimento Estadual de Moradores de Rua, mais de 1.000 pessoas passam a viver nas ruas todos os anos. São Paulo, por exemplo, tem 27.000 pessoas vivendo nas ruas. Os motivos são os mais variados – desde pessoas que vivem em situação de risco, isto é, morando em encostas, favelas e passam a ser usuárias de drogas, bebida e perdem o vínculo familiar, até pessoas que perdem o emprego, são despejadas e passam a viver nas ruas. Poucas pessoas nesta condição conseguem sair das ruas, pois a recuperação é um longo processo que envolve uma complexidade muito grande de ações.

 

A Bicicloteca não tem como objetivo primário o de recuperar moradores de rua, mas sim de oferecer leitura gratuita como forma de trazer o cidadão novamente para a comunidade e recuperar a sua auto-estima, pois hoje estas pessoas fazem parte de uma sociedade invisível e desprezada na cidade.

Falando do projeto em si, trata-se de um triciclo com motor elétrico, freios a disco, diferencial traseiro, com um baú acoplado na parte traseira com capacidade para levar 300 livros. O triciclo pode trafegar em qualquer lugar, nas praças , nos calçadões, nas ruas, não atrapalha o tráfego, é fácil de guardar e não precisa de combustível fóssil para funcionar.

Hoje o Instituto Mobilidade Verde está replicando essa experiência em outras comunidades sem acesso a Leitura, e a idéia é ampliar o projeto para todo o Brasil através de organizações locais. Atualmente possuem 7 biciclotecas que circulam no centro de São Paulo, 5 a serem implementadas em outras comunidades e mais 5 previstas para o ano de 2013.

Reparem o painel de energia solar!

Como parte do projeto foi desenvolvido um sistema de captação de energia solar através de um painel solar instalado na parte superior do baú, para dar maior autonomia para a Bicicloteca. Desta forma, ela mesma gera a energia que precisa. A energia é armazenada em baterias de Íon-Lithium no interior da Bicicloteca e usada para deslocamento e para alimentar um Notebook e um roteador de Internet 3G – WI-FI. Assim, além de emprestar livros a Bicicloteca oferece Internet gratuita, ajuda moradores de rua a retirarem 2a via de documentos, cursos e empregos, acesso via Skype para falar com parentes e amigos distantes, e por aí vai…

A Bicicloteca tem uma metodologia para empréstimos de livros sem burocracia que consiste na mesma mecânica do Book Crossing, ou seja , os livros emprestados e não necessitam retornar para a Bicicloteca, após a leitura a pessoa pode passar para outra, mas fica um acordo tácito entre as partes – o livro não poderá ser vendido ou jogado fora… Se quiser pode ser devolvido. Segundo o Sr. Robson Mendonça, responsável pela Bicicloteca e ex-morador de rua descrito acima, a taxa de devolução é de mais de 90%. Incrível não? Em nossas andanças com ele, nós mesmo presenciamos este fenômeno de devolução expontânea.

Sr. Robson e a Bicicloteca

“Quem retira um livro na Bicicloteca precisa deixar um nome e a sua condição – se morador de rua, estudante, profissional liberal, etc…” Os livros são carimbados para evitar que seja vendido com a inscrição “Este livro não pode ser vendido, ele faz parte do projeto Bicicloteca, após a leitura doe para outra pessoa ou devolva para a Bicicloteca”, afirma Robson.

“Uma das condições para que o projeto funcione é sua força em conseguir livros, para isso fizemos parcerias com os Bicicletários do Metrô, com a Biblioteca Mário de Andrade , Catraca Livre e diversos outros locais que apóiam e divulgam a Bicicloteca.”, nos fala Lincoln.

Fizemos parceria com diversas recicladoras de papel e cooperativas de catadores de material reciclável para que os livros não sejam destruídos. Todos os livros em boas condições que são recolhidos nas ruas pelos catadores, são separados e vendidos pelo preço de papel picado para a Bicicloteca, sendo que algumas recicladoras tem doado uma parte destes livros, pois mais de 1 tonelada de livros são destruídos por mês e vendidos como insumo para indústria de papéis. Hoje parte desse volume retornam as ruas através da Bicicloteca”, conta Lincoln.

Em um ano foram emprestados mais 107 mil livros com apenas uma Bicicloteca e forma recebidos mais de 40.000 livros em doações.

Ainda segundo Lincoln, a distribuição dos empréstimos foi a seguinte: 35% eram Moradores de rua, 33% em “situação de Rua” ( Albergues, pensão social), 20% estudantes e 12% outros ( trabalhadores locais, em sua maioria).

Uma coisa muito legal é que cerca de 280 leitores de rua conseguiram emprego através do trabalho desenvolvido como Movimento Estadual de moradores de Rua em parceria com a Bicicloteca.

Com isto, a bicicloteca já participou de diversos programas de TV do Brasil todo, tais como: Ana Maria Braga, TV Futura, Ação Social da rede Globo, Globo Educação, diversas TVs internacioanis BBC Londres, Le Monde , France 24hs, CNN, Japão , Rússia , Holanda, Grécia, EUA,  jornais Estado de SP, Folha, revista Veja, Istoé,  etc..

A Bicicloteca foi citada pelas associações de Bibliotecas Públicas do Reino Unido e dos EUA como modelo de Biblioteca moderna, que vai de encontro com o seu público e gerou grandes debates sobre os investimento no setor…

Eles tiveram matérias sobre a Bicicloteca até no Japão! Um dos frutos deste projeto foi o Prêmio “Responsabilidade Social”, das Organizações Globo; e foi considerada o “Projeto do Ano”, pelo site “Catraca Livre”, do Gilberto Dimenstein/CBN.

Encerra Lincoln: “ Nós acreditamos que o papel da Bicicloteca é abrir os horizontes e provocar a transformação social através da leitura. Hoje, ela é fundamental na vida das pessoas em situação de rua do centro de São Paulo. E, independente de qualquer coisa, precisamos levar esta experiência para o Brasil todo.”

Nós do EVDB apoiamos esta iniciativa e fica aqui o email do Lincoln para qualquer contato!
Que venham mais Biciclotecas!